Cachorros Sonham com Seus Tutores? Descubra o Que a Ciência Revela Sobre os Sonhos dos Cães

Cachorro de pelagem dourada dormindo tranquilamente sobre um tapete, próximo ao sofá, iluminado pela luz natural.

Você já observou seu cachorro dormindo profundamente e, de repente, percebeu suas patinhas se movimentando como se estivesse correndo? Talvez ele tenha soltado um pequeno latido, mexido as orelhas ou movimentado o focinho. Diante dessa cena, é quase impossível não imaginar: será que ele está sonhando?

E uma pergunta ainda mais interessante surge para quem compartilha a vida com um cão: será que os cachorros sonham com seus tutores?

A possibilidade é encantadora. Afinal, nossos companheiros de quatro patas passam boa parte de suas vidas ao nosso lado. Reconhecem nossa voz, aprendem nossos hábitos e participam de experiências que fazem parte de sua rotina.

Mas o que acontece com essas lembranças quando eles adormecem?

A neurociência já encontrou evidências importantes de que o cérebro dos animais continua processando informações durante o sono. Entretanto, descobrir exatamente o que um cachorro sonha ainda é um desafio científico.

Vamos conhecer o que os pesquisadores descobriram e entender por que os sonhos dos cães são um dos assuntos mais fascinantes do comportamento animal.

Cachorros Realmente Sonham?

Embora não seja possível perguntar a um cachorro o que aconteceu enquanto ele dormia, existem fortes razões científicas para acreditar que os cães experimentam alguma forma de atividade semelhante aos sonhos humanos.

Assim como nós, eles apresentam diferentes estágios de sono, incluindo a fase conhecida como REM, abreviação de Rapid Eye Movement, ou movimento rápido dos olhos.

Nos seres humanos, essa fase está frequentemente associada aos sonhos mais vívidos. Durante o sono REM, o cérebro apresenta intensa atividade, mesmo que o corpo permaneça relativamente imóvel.

Os cães também apresentam esse estágio, acompanhado de alterações características na atividade cerebral.

Contudo, é importante compreender uma distinção: a presença do sono REM não permite determinar exatamente o que um animal está sonhando.

Isso acontece porque os sonhos são experiências subjetivas. Nos seres humanos, conseguimos investigá-los por meio de relatos após o despertar. Com os animais, essa possibilidade não existe.

Ainda assim, estudos sobre memória e atividade neuronal oferecem pistas importantes sobre o que pode acontecer no cérebro enquanto eles dormem.

A Descoberta do MIT Que Revolucionou o Estudo dos Sonhos dos Animais

Uma das pesquisas mais conhecidas sobre sonhos em animais foi realizada por cientistas do Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos.

Em 2001, os pesquisadores Kenway Louie e Matthew Wilson publicaram, na revista científica Neuron, um estudo sobre a atividade cerebral de ratos durante o sono.

O experimento acompanhou animais treinados para percorrer um trajeto em busca de alimento.

Enquanto os ratos realizavam a tarefa, os cientistas registravam a atividade de grupos de neurônios localizados no hipocampo, região cerebral fundamental para determinados processos de memória.

Posteriormente, os pesquisadores observaram a atividade desses mesmos neurônios enquanto os animais dormiam.

O resultado foi surpreendente.

Durante episódios de sono REM, surgiram sequências de atividade neuronal semelhantes àquelas registradas quando os ratos percorriam o trajeto.

Em outras palavras, o cérebro reproduzia padrões associados a experiências vividas anteriormente.

Essa descoberta forneceu evidências importantes de que acontecimentos do período de vigília podem ser reativados durante o sono.

Entretanto, existe uma ressalva: o estudo foi realizado com ratos, não com cachorros. Portanto, não demonstra diretamente o conteúdo dos sonhos caninos.

Mesmo assim, abriu novas possibilidades para compreender a relação entre memória, experiências cotidianas e sono nos mamíferos.

Cachorros Podem Sonhar Com Seus Tutores?

Essa é a pergunta que mais desperta curiosidade entre os amantes dos animais.

Imagine um cachorro que passa o dia acompanhando sua família. Ele reconhece o som das chaves na porta, identifica a voz de seu tutor, participa de brincadeiras e aprende a associar determinadas palavras a acontecimentos específicos.

Todas essas experiências envolvem processos de percepção, aprendizagem e memória.

Por isso, considerando o que sabemos sobre a atividade cerebral dos mamíferos durante o sono, é plausível que experiências envolvendo pessoas familiares também participem dos processos de reativação de memórias nos cães.

Entretanto, ainda não existe uma pesquisa capaz de demonstrar diretamente que um cachorro sonha com seu tutor.

Também não sabemos se, durante um eventual sonho, ele reconheceria uma pessoa da mesma maneira que a reconhece quando está acordado.

A hipótese é interessante, mas permanece uma hipótese.

O que podemos afirmar é que os cães desenvolvem relações sociais significativas com os seres humanos e conseguem aprender a reconhecer sinais associados às pessoas com quem convivem.

Assim, a ideia de que experiências compartilhadas com seus tutores possam participar de sua atividade cerebral durante o sono é compatível com conhecimentos atuais sobre cognição animal.

Os Cachorros Sonham Com Imagens, Sons ou Cheiros?

Quando pensamos em sonhos, geralmente imaginamos cenas visuais: pessoas, lugares, acontecimentos e situações.

Mas será que os cães experimentam os sonhos da mesma maneira?

Essa pergunta se torna especialmente interessante quando consideramos as diferenças entre a percepção humana e a canina.

Os cachorros possuem um sistema olfativo altamente desenvolvido. Os cheiros desempenham um papel fundamental na maneira como exploram o ambiente, identificam outros animais e reconhecem informações sobre o mundo.

Além disso, sua audição permite perceber sons em frequências que não conseguimos ouvir.

Portanto, é razoável questionar se essas características sensoriais também influenciam suas experiências durante o sono.

Será Que os Cães Conseguem Sentir Cheiros Enquanto Sonham?

Não sabemos.

Até o momento, não existem evidências diretas suficientes para determinar se os cães experimentam sensações olfativas durante os sonhos ou como essas experiências seriam representadas subjetivamente.

Entretanto, como os cheiros são importantes para sua percepção e memória, a possibilidade desperta interesse científico.

Um cachorro pode reconhecer informações olfativas relacionadas a pessoas, objetos e ambientes quando está acordado. Isso não significa, porém, que possamos afirmar que ele sente esses mesmos cheiros durante o sono.

O conteúdo sensorial dos sonhos caninos continua sendo uma questão em aberto.

E Quanto às Imagens?

Também não sabemos se os cães sonham com imagens semelhantes às humanas.

Embora possuam visão funcional e consigam reconhecer pessoas e objetos, isso não comprova que seus sonhos apresentem cenas visuais organizadas da mesma maneira que os nossos.

A investigação científica ainda precisa avançar para compreender como diferentes espécies experimentam mentalmente as informações durante o sono.

O Cérebro dos Cães Pode Reviver Experiências Enquanto Dormem?

Uma pesquisa publicada em 2017 na revista Scientific Reports trouxe informações importantes sobre a relação entre sono e aprendizagem nos cachorros.

O estudo, conduzido por Anna Kis e colaboradores, investigou como o aprendizado de comandos influenciava a atividade cerebral dos animais durante o descanso.

Os pesquisadores utilizaram técnicas não invasivas para registrar a atividade elétrica do cérebro dos cães após tarefas de aprendizagem.

Os resultados demonstraram que aprender novos comandos estava associado a alterações em determinados padrões de atividade cerebral durante o sono.

Além disso, algumas características desses registros estavam relacionadas ao desempenho dos animais em avaliações posteriores de memória.

Essas observações sugerem que o sono participa de processos importantes para a consolidação de informações aprendidas.

Entretanto, o estudo não investigou o conteúdo dos sonhos.

Isso significa que os pesquisadores não descobriram se os cães sonhavam com os comandos, com as pessoas envolvidas no treinamento ou com as recompensas recebidas.

O que identificaram foi uma relação entre aprendizagem, atividade cerebral durante o sono e desempenho posterior.

Essa diferença é fundamental para compreender corretamente as descobertas científicas.

O Que São Fusos do Sono e Por Que Eles Interessam aos Cientistas?

Outro estudo publicado em 2017, também na revista Scientific Reports, investigou determinados padrões de atividade elétrica cerebral conhecidos como fusos do sono.

Esses eventos consistem em breves oscilações da atividade cerebral observadas durante o sono não REM.

Nos seres humanos, os fusos do sono são estudados por sua possível participação em mecanismos relacionados à memória.

Os pesquisadores Ivaylo Iotchev e colaboradores identificaram, em cães, atividades elétricas semelhantes às observadas em outras espécies.

Além disso, encontraram associações entre determinadas características desses eventos e o desempenho dos animais em tarefas de aprendizagem.

Essa descoberta é relevante porque demonstra que a investigação do sono canino vai muito além da observação de movimentos corporais.

Os cientistas conseguem estudar processos cerebrais relacionados à maneira como os cães aprendem e armazenam informações.

Entretanto, os fusos do sono não são provas de sonhos específicos. Eles representam fenômenos fisiológicos relacionados ao funcionamento cerebral durante o descanso.

Por Que os Cachorros Mexem as Patinhas Enquanto Dormem?

Essa é uma das cenas mais curiosas para quem convive com cães.

Alguns animais movimentam as patas como se estivessem correndo. Outros contraem o focinho, mexem as orelhas ou emitem pequenos sons.

Esses movimentos podem ocorrer durante o sono normal, inclusive na fase REM.

Durante esse estágio, mecanismos neurológicos reduzem a atividade de grande parte da musculatura, ajudando a impedir movimentos corporais amplos.

Entretanto, pequenas contrações musculares ainda podem acontecer.

Por isso, observar discretos movimentos das patas não significa necessariamente que o cachorro esteja correndo em um sonho.

Também não permite afirmar que ele esteja perseguindo um brinquedo ou brincando com outro animal.

A associação entre o movimento observado e uma cena imaginada pelo tutor é compreensível, mas não constitui uma comprovação científica.

Um Cachorro Que Late Dormindo Está Sonhando?

Pode estar apresentando manifestações motoras ou vocais relacionadas ao sono, mas não é possível confirmar o conteúdo de uma experiência subjetiva apenas pelo som emitido.

Pequenos latidos, gemidos ou contrações ocasionais podem acontecer durante o descanso.

Entretanto, episódios intensos, frequentes ou acompanhados de sinais incomuns merecem avaliação veterinária.

O importante é não interpretar automaticamente cada movimento ou vocalização como uma demonstração de alegria, medo ou sofrimento.

Os Cães Conseguem Ter Pesadelos?

Se os cães apresentam estados cerebrais semelhantes aos associados aos sonhos humanos, seria possível que também experimentassem sonhos desagradáveis?

A hipótese é plausível.

Entretanto, ainda não existe um método científico capaz de confirmar diretamente que um cachorro teve um pesadelo.

Nos seres humanos, os sonhos desagradáveis podem envolver experiências anteriores, situações imaginárias e diferentes estados emocionais.

Nos cães, sabemos que emoções e experiências influenciam diversos aspectos do comportamento e da fisiologia.

Isso, porém, não significa que possamos identificar um pesadelo apenas observando um animal choramingando enquanto dorme.

Também não é correto afirmar que cães resgatados necessariamente revivem experiências traumáticas durante os sonhos.

Embora o histórico de vida possa influenciar o comportamento e o bem-estar, atribuir conteúdos específicos aos sonhos ultrapassaria as evidências disponíveis.

A ciência ainda precisa investigar melhor a relação entre experiências emocionais e atividade cerebral durante o sono dos animais.

Além de investigar a memória e os possíveis sonhos dos animais, a ciência também procura compreender como as experiências sociais influenciam o sono. Um estudo realizado com 16 cães adultos identificou mudanças na organização do descanso após interações positivas e negativas. Conheça os resultados dessa pesquisa em nosso artigo Quando a Ciência Investiga o Descanso dos Cães.

Cachorros Reconhecem Seus Tutores Mesmo Quando Estão Dormindo?

Essa pergunta envolve duas questões diferentes.

A primeira diz respeito à capacidade de reconhecer pessoas familiares. Os cães conseguem aprender a identificar diferentes sinais associados aos seres humanos, incluindo características vocais, visuais e olfativas.

A segunda questão é saber se esse reconhecimento ocorre dentro de um sonho.

Nesse caso, ainda não temos uma resposta científica.

Um cachorro pode reagir à voz do tutor enquanto está adormecido ou despertando, mas isso não significa que estivesse sonhando com aquela pessoa.

Da mesma maneira, movimentar as patas quando alguém se aproxima não comprova que o animal reconheceu essa presença dentro de uma experiência onírica.

O reconhecimento de estímulos externos e o conteúdo de um sonho são fenômenos distintos.

Ainda assim, compreender a capacidade dos cães de estabelecer vínculos sociais ajuda a explicar por que a hipótese de sonharem com pessoas familiares desperta tanto interesse.

Todos os Cachorros Sonham da Mesma Maneira?

Provavelmente existem diferenças individuais na organização do sono, mas ainda não sabemos como essas diferenças se relacionam com o conteúdo dos sonhos.

A idade, as características fisiológicas e outros fatores podem influenciar os padrões de sono dos cães.

Além disso, animais diferentes apresentam histórias de aprendizagem, rotinas e experiências particulares.

Entretanto, seria precipitado afirmar que cães de determinadas raças sonham mais, que filhotes possuem sonhos mais elaborados ou que animais idosos sonham com lembranças antigas.

Essas afirmações exigiriam evidências específicas que ainda não estão disponíveis.

O mesmo cuidado vale para interpretações baseadas no temperamento.

Um cachorro muito ativo durante o dia não necessariamente apresenta sonhos mais movimentados do que um animal tranquilo.

A frequência dos movimentos corporais observados durante o sono não constitui uma medida direta da quantidade ou da intensidade dos sonhos.

Será Possível Descobrir Exatamente o Que os Cães Sonham?

A neurociência avançou significativamente nas últimas décadas, mas compreender a experiência subjetiva dos animais continua sendo um desafio.

Técnicas como eletroencefalografia permitem acompanhar a atividade elétrica do cérebro durante diferentes estados de sono.

Outros métodos ajudam a investigar memória, aprendizagem e respostas a estímulos.

Entretanto, nenhuma dessas ferramentas permite assistir aos sonhos de um cachorro como se fossem um filme.

Mesmo quando os cientistas identificam padrões cerebrais relacionados a experiências anteriores, não podem concluir automaticamente que o animal vivenciou conscientemente aquela experiência durante um sonho.

Existe uma diferença entre a reativação de informações armazenadas no cérebro e a experiência subjetiva de sonhar.

Compreender essa diferença é essencial para evitar interpretações exageradas de descobertas científicas.

Ainda assim, novas pesquisas poderão esclarecer como diferentes espécies processam memórias durante o sono e quais mecanismos estão associados à formação dos sonhos.

Afinal, Seu Cachorro Pode Sonhar Com Você?

Depois de tantas descobertas, chegamos novamente à pergunta que inspirou esta investigação.

A ciência ainda não consegue confirmar se os cachorros sonham especificamente com seus tutores.

Entretanto, sabemos que os cães apresentam estágios de sono comparáveis aos de outros mamíferos, possuem capacidades importantes de aprendizagem e memória e desenvolvem relações sociais com as pessoas que fazem parte de suas vidas.

Também sabemos que o cérebro pode reativar informações relacionadas a experiências anteriores durante o sono, conforme demonstrado em pesquisas com outros mamíferos.

Portanto, a possibilidade de experiências envolvendo seus tutores participarem da atividade cerebral dos cães durante o descanso é cientificamente plausível.

Mas plausibilidade não significa comprovação.

Talvez um dia a neurociência consiga esclarecer melhor como os cachorros experimentam seus sonhos.

Até lá, continuaremos observando aquelas patinhas que se movimentam discretamente, os pequenos sons e as expressões curiosas de nossos companheiros adormecidos.

E talvez continuemos imaginando que, em algum lugar de seus sonhos, exista um passeio inesquecível, uma brincadeira favorita ou o reencontro com alguém muito especial.

Não sabemos se aparecemos nos sonhos dos nossos cães. Mas sabemos que podemos fazer parte das melhores experiências de suas vidas enquanto estão acordados.

E essa é uma responsabilidade tão bonita quanto a própria possibilidade de sonhar.


Fontes científicas

  1. Louie, K.; Wilson, M. A. (2001). Temporally Structured Replay of Awake Hippocampal Ensemble Activity during Rapid Eye Movement Sleep. Neuron. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/11182087/
  2. Massachusetts Institute of Technology — MIT (2001). Animals Have Complex Dreams, MIT Researcher Proves. https://news.mit.edu/2001/dreaming
  3. Kis, A. e colaboradores (2017). The Interrelated Effect of Sleep and Learning in Dogs (Canis familiaris); an EEG and Behavioural Study. Scientific Reports. https://www.nature.com/articles/srep41873
  4. Iotchev, I. B. e colaboradores (2017). EEG Transients in the Sigma Range During non-REM Sleep Predict Learning in Dogs. Scientific Reports. https://www.nature.com/articles/s41598-017-13278-3

* Nota editorial: Este artigo foi elaborado com base em pesquisas científicas sobre sono, memória e comportamento animal. As informações apresentadas distinguem evidências comprovadas de hipóteses ainda em investigação.

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Sobre a Autora

Picture of Silvia Capriotti é advogada, fotógrafa especializada em fotografia pet, autora dos livros Adote Alegria e voluntária da causa animal há mais de 18 anos. Atua na divulgação da adoção responsável, proteção animal e bem-estar de cães e gatos por meio do Projeto Leva Eu e do trabalho desenvolvido junto ao Clube dos Vira-Latas.
Silvia Capriotti é advogada, fotógrafa especializada em fotografia pet, autora dos livros Adote Alegria e voluntária da causa animal há mais de 18 anos. Atua na divulgação da adoção responsável, proteção animal e bem-estar de cães e gatos por meio do Projeto Leva Eu e do trabalho desenvolvido junto ao Clube dos Vira-Latas.